Por Instituto PACS e Articulação Internacional dos Atingidos e Atingidas pela Vale


Foto: Ísis de Medeiros

No dia 29 de julho de 2020, a Vale divulgou uma boa notícia… para seus acionistas. Após um ano e meio do crime cometido em Brumadinho, a mineradora anunciou que retomaria o pagamento de dividendos aos seus investidores e comemorou o lucro de R$ 6,2 bilhões que teve no primeiro semestre desse ano.

O relatório, que revelou o aumento dos lucros e da produção de minério de ferro pela Vale foi comemorado pelos seus investidores. Mas não pela Alzeneide, ou Gabi, como é mais conhecida. Moradora do assentamento Francisco Romão, no Maranhão, Gabi já observava o aumento na produção do minério de ferro, antes mesmo de qualquer relatório. Como os trilhos da ferrovia que ligam Carajás (PA) ao porto São Luís (MA) passam próximo a sua comunidade, ela notou que nos últimos meses os vagões estavam mais carregados e passando com mais frequência.

Para os acionistas da Vale, esse minério se transforma em lucro. Mas para quem mora no assentamento Francisco Romão, é sinônimo de doenças dermatológicas e respiratórias. “Como aqui venta muito, o vento leva aquele minério, polui o ar e afeta a vida das pessoas. Surgem coceiras e alergias nas pessoas”.

A estrada de ferro pelo “corredor da Vale” também afeta as casas dos moradores e o acesso a água. Como o impacto da passagem do trem é muito forte, acaba provocando rachaduras nas paredes e nos reservatórios que cada família construiu.

Em meio à pandemia, os moradores do assentamento também enfrentam dificuldades para manter o poço artesiano “que foi construído pela Vale após muita luta”, como destaca Gabi. A empresa não se comprometeu com a sua manutenção e a comunidade não tem conseguido pagar a conta de energia consumida pela bomba que puxa a água do poço.

Para as mulheres do assentamento, o drama vivido durante a pandemia é ainda maior. Além da dificuldade no acesso a água – que é um dos recursos mais importantes no combate ao coronavírus – elas ainda lidam com o aumento da violência doméstica, que vem ocorrendo em todo o Brasil.

“As mulheres são as que mais sofrem com esses impactos. As mulheres que cuidam do lar, dos filhos e que buscam trazer o pão de cada dia para dentro de casa”, afirma Gabi. Essa sobrecarga também afeta a saúde mental das mulheres em comunidades que não têm acesso a tratamentos, como é o caso do assentamento Francisco Romão, que sequer possui posto de saúde próximo.

A piora nas condições de vida dessas localidades durante a pandemia também ocorre em outra área atingida pela Vale, que é o distrito de Nova Lima, em Minas Gerais. Moradores da comunidade de Macacos denunciam que desde novembro de 2019 aguardam a divulgação do mapa contendo informações sobre as áreas atingidas em um possível rompimento da barragem de Mina Mar Azul, sob responsabilidade da mineradora.

Portanto, as recomendações de “fique em casa e lave bem as mãos e os alimentos” não são tão acolhedoras para quem não sabe se sua casa está na “rota da lama da Vale” ou para quem tem seus reservatórios danificados pelos trens da empresa.

Nem a pandemia parece sensibilizar a mineradora. Em meio às comemorações pelo crescimento do lucro da Vale, a fundação Renova anunciou a suspensão do pagamento do auxílio financeiro para cerca de sete mil pessoas atingidas pelo rompimento da barragem do Fundão em Mariana (MG). Criada pelas empresas envolvidas no crime, a fundação acabou tendo uma derrota judicial, que determinou a manutenção do pagamento.

Infelizmente, essa é uma das poucas vitórias judiciais comemoradas pelas famílias atingidas pela Vale. Se esquivando de suas responsabilidades, a mineradora segue festejando seus lucros. Os dividendos são dados aos acionistas, mas não para quem paga o preço da atuação da Vale em seus territórios com sua saúde e até com a própria vida.

“Nós sabemos que a Vale tem a obrigação de ajudar as comunidades. É um direito nosso, que não é cumprido pela Vale. Mas estamos na luta,” finaliza Gabi.

Os impactos da atuação da Vale S.A. sobre a vida das mulheres é o tema da sétima edição do ciclo de debates #MulheresTerritóriosdeLuta, realizado em parceria entre o Instituto Pacs com a Articulação Internacional de Atingidos e Atingidas pela Vale (AIAAV), na próxima quarta-feira (19), às 17h, no canal do Instituto Pacs no Youtube.