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Por Juliana Benício Xavier


Foto: Juliana Benício Xavier

O “Financial Times” organiza anualmente em Lausanne/ Suíça, a Cúpula Global de Matérias-Primas (“FT Commodities Global Summit”). Este ano o encontro aconteceu entre os dias 25 e 28 de março com executivos de distintos lugares do mundo “falando o que mais importa acerca do tema dos recursos naturais”. A agenda desse encontro gira em torno da construção de métodos para intensificar a exploração de matérias primas nos países de que são extraídas, sendo que o Brasil é tratado pelo grupo como uma potência das “commodities”.

A ausência de preocupação com os impactos socioambientais é escancarada quando percebemos que na edição latino-americana do evento, ocorrida entre 15 e 16 de outubro de 2018 no Rio de Janeiro, teve como principal palestrante o presidente da Vale (recentemente afastado do seu posto em decorrência do episódio criminoso do rompimento da barragem de rejeitos em Brumadinho/MG).

Fabio Schvartsman, discursou sobre sua missão de tornar a Vale uma empresa “capaz de gerar retornos mesmo nas condições mais difíceis do mercado”. Após 25 de janeiro de 2019 (dia do rompimento da barragem de Brumadinho), é nítido que esse retorno econômico objetivado por Schvartsman se dá em detrimento da vida humana e da natureza.

Com vistas a analisar criticamente o comércio mundial de matérias primas, identificando o papel desigual ocupado pelos países do sul e do norte geopolítico global, o “Coletivo contra a especulação das matérias primas” organiza, anualmente, um evento sombra, uma espécie de “contra cúpula”.

Neste ano de 2019, a Articulação Internacional das Atingidas e Atingidos pela Vale participou, utilizando o espaço para chamar a atenção daquelas e daqueles presentes para o fato de que estamos diante de uma realidade neocolonial em que países em que acontece a exploração mineral suportam os danos socioambientais da exploração, enquanto os lucros da atividade são vertidos em favor de um pequeno grupo de acionistas localizados no norte geopolítico global (as neometrópoles).

Aproveitamos o espaço para denunciar o progressivo fechamento do regime político no Brasil, que tem como consequência direta o extermínio cada vez mais crescente de defensoras e defensores de direitos humanos. Finalizamos chamando a atenção para a inserção da Suíça nesse processo e fazendo um chamado para que todas e todos assumam seus papeis de sujeitos transformadores dessa sociedade. A íntegra do discurso pode ser lida ao final.

No dia, também compartilharam seus saberes o professor de história contemporânea da Universidade de Lausanne, Sébastien Guex, que estuda a tributação Suíça como mecanismo de espoliação dos países do Sul global. Outro participante foi Patrick Monier, do coletivo “Or de question”, que faz importante combate à instalação da mega mineração na colônia francesa da Guiana.

A guerreira Daiara Tukano, pertencente a uma etnia indígena (Tukano) localizada no extremo noroeste do Brasil, denunciou a continuidade do histórico genocídio dos povos originários na América Latina, trazendo relatos dos seus processos de resistência. Denunciou que o presidente Jair Bolsonaro já noticiou que dará um fim à política de demarcação de terras indígenas, relacionando o anúncio do líder político ao aumento da violência contra povos originários no Brasil.

Participaram, ainda, Raphaël Granvaud, militante da associação “Sobrevivência” e autor do livro “Areva na África: uma face oculta da energia nuclear francesa”. Em sua intervenção, Raphaël demonstra que as minas francesas de urânio na Nigéria não causam apenas catástrofes ambientais, mas também estão relacionadas à corrupção política que permite que a França continue se apropriando dos recursos naturais em condições vantajosas mesmo após a independência.

Marc Ummel trouxe a questão do comércio internacional do ouro, demonstrando que a Suíça refina 70% do ouro mundial e que a cadeia de comercialização e refino é caracterizada pela falta de transparência e profundas desigualdades.

Omeima Abdelsam, diplomata saharaui,  tratou da pilhagem de fosfato no Saara Ocidental, falando, também, sobre a violência imposta às mulheres no Marrocos. Esteve presente, ainda, Augustin Mukamba, membro da comunidade da República Democrática do Congo na Suíça, que demonstrou como a riqueza dos recursos hídricos em seu país estão ameaçadas em razão das minas de “coltan” (tântalo).