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Quase 200 famílias mineiras precisaram abandonar as residências por causa do risco de rompimento de uma barragem da Vale. Mesmo com o auxílio da mineradora, elas ainda não sabem o que esperar do futuro.

Sete meses de um susto no meio da madrugada…

“Quando aconteceu isso da barragem, tinha quatro meses que eu tinha feito uma cirurgia de colocar uma prótese de quadril. Na hora de correr, até a muleta ficou por lá, na hora do susto”, lembra uma moradora.

Sete meses de perda…

“Tem o cemitério lá de quase 300 anos, a nossa igreja de quase 300 anos, que a gente ia comemorar a festa neste ano. Caso a gente volte, vai ver a igreja no chão. Tudo morreu. O jardim cheio de rosas ao redor da igreja, a grama, secou tudo”, descreve outro.

Desde fevereiro, cerca de 500 pessoas da comunidade Socorro, em Barão de Cocais, estão fora de casa. Não houve rompimento de barragem, mas a estrutura Sul Superior da Vale teve o nível de segurança alterado para três – o mais alto na escala de risco.

Dois simulados de emergência já foram realizados com a população.

De acordo com a Vale, todas as famílias que foram levadas para hotéis já estão em casas alugadas. Elas recebem doações e pagamento de indenização emergencial. Apesar de todos os auxílios, o dano para o psicológico dos integrantes da comunidade é irreversível, já que todos estão separados. É o que diz o morador Adil Gomide.

“Quer dizer, acabou aquele vínculo que nós tínhamos, todo mundo com parentesco. Nos finais de semana, de manhã, a gente sempre ia para a igreja rezar. Nos finais de tarde, a gente sempre estava sentado em roda na praça, nos bares, colocando as conversas em dia. Por exemplo, minha mãe já faleceu e está enterrada no cemitério de Socorro, então meu pai, com 94 anos, clamou comigo que me fez até chorar: ‘é, Adil, caso eu venha a falecer eu não vou poder ser enterrado lá, vou para o gavetão aqui na cidade’.”

A presidente da Associação Comunitária dos Moradores de Socorro, Maria das Dores Santos, carrega um peso parecido: o de não poder honrar a memória da mãe falecida.

“Ela está lá no cemitério do Socorro e a sepultura dela está sem cruz. Meu marido ia colocar, só que não deu tempo e, para mim, saber que ela está lá morta sem a gente poder ver, sem poder visitar [no cemitério], e além disso sem cruz, é um desaforo. Isso está acabando comigo”, desabafa.

Adil Monteiro também relata o choque para as famílias que, depois de tantas gerações morando na roça, agora precisam lidar com o modo de vida urbano.

“Lá, às 20h da noite já estava indo para a cama, porque a gente tinha o costume de levantar às 4h para trabalhar e pegar serviço cedo. Aqui na cidade, às vezes 22h o pessoal está saindo para a rua. Lá a gente tinha as nascentes no próprio terreno, os quintais em que a gente gostava de plantar, e aqui na cidade tudo é comprado”, compara.

Outra moradora de Socorro, Gislene da Silva, não vê a hora de poder voltar para o lugar de onde foi forçada a sair.

“Minha esperança não acabou ainda, não. Fui criada lá, sabe? Tenho muita saudade de lá. Minha mãe, por exemplo, na casa em que ela está não tem quintal, ela era acostumada a mexer com as plantas dela… a gente não tem uma previsão de nada e fica sem saber o que pode acontecer.”

Em nota, a Vale disse que a cava da Mina do Gongo Soco, em que fica a barragem em risco, está sendo monitorada 24 horas por dia. Além disso, realiza obras emergenciais para minimizar os impactos na cidade de Barão de Cocais e no ambiente em caso de rompimento. Todos os animais da área evacuada estão recebendo cuidados e acolhimento.

No entanto, segundo a Defesa Civil Estadual, não há previsão para que o nível da barragem seja alterado.