Por Jornal Valor Econômico


A Vale demitiu em setembro do ano passado um auditor que se recusou a certificar a barragem que se rompeu em Brumadinho (MG) no início do ano, de acordo com documentos preliminares de uma investigação da polícia e do Ministério Público.

A mineradora brasileira substituiu o auditor pela Tüv Süd, companhia alemã de certificação, de acordo com um documento que resumiu as descobertas iniciais da força-tarefa que está investigando o rompimento da barragem. A Tüv Süd, que tinha certificado a barragem como segura em junho, assinou a estabilidade desta novamente em setembro, depois que o outro auditor se recusou a fazê-lo.

O resumo das descobertas da força-tarefa, ao qual o “The Wall Street Journal” teve acesso, é a primeira indicação de que a Vale foi alertada por outra empresa sobre a segurança da barragem.

Uma investigação descobriu que empregados da Vale e da Tüv Süd sabiam há meses sobre os perigos da barragem que se rompeu. Ainda assim, funcionários da Tüv Süd certificaram a barragem como segura, expressando preocupações sobre a potencial perda de contratos com a Vale, uma cliente relevante, descobriu a investigação.

A Vale, uma das maiores empresas brasileiras e maior produtora de minério de ferro do mundo, disse que está cooperando completamente com as autoridades e executando sua própria investigação sobre o evento de 25 de janeiro, quando a Barragem 1 de uma mina próxima da cidade mineira de Brumadinho se rompeu.

A Tüv Süd disse que está cooperando com as autoridades, mas se recusou a comentar sobre as investigações. Autoridades já confirmaram a morte de 186 pessoas como resultado do rompimento da barragem. Ainda há 122 pessoas desaparecidas e presumidamente mortas.

A polícia e os procuradores disseram que descobriram que a Vale tinha contratado a unidade brasileira da Tractebel Engenharia, subsidiária da gigante francesa Engie, para certificar a estabilidade da barragem de Brumadinho em setembro. A certificação seguiu uma auditoria mais profunda executada pela Tüv Süd em junho.

Os especialistas da Tractebel, contudo, se recusaram a assinar a segurança da barragem, depois de descobrirem que os critérios de medição da estabilidade estavam muito abaixo dos níveis recomendados, de acordo com o resumo do documento da polícia.

Depois que a Tractebel se recusou a assinar a certificação, a Vale recontratou a Tüv Süd para a certificação de setembro no seu lugar, de acordo com o documento. A empresa alemã certificou a barragem.

Representantes da Tractebel não foram encontrados para comentar as afirmações.

As autoridades enviaram o resumo das suas descobertas ao conselho de administração da Vale na sexta-feira, recomendando que a companhia removesse seu presidente e outros 13 executivos e funcionários de seus postos, por causa das investigações. O presidente da Vale, Fabio Schvartsman, deixou a companhia junto de outros executivos no sábado.

No documento, os procuradores disseram acreditar que os executivos da Vale estavam cientes dos problemas da barragem, citando procedimentos internos na companhia que exigiam que questões de segurança como essas fossem reportadas à administração.

“Isso, combinado com outros fatores diversos disponíveis, apontam para o fato de que a administração da Vale recebia com frequência informações relacionadas à segurança das estruturas sob sua responsabilidade”, diz o resumo das descobertas da investigação. O documento, contudo, não cita nenhuma evidência específica de que a administração tinha ciência dos riscos da barragem.

Um porta-voz da Vale disse que os executivos não tinham conhecimento prévio do risco iminente de colapso da Barragem 1, e que nenhum relatório apontou isso.

A força-tarefa também acusa Schvartsman de não ter tomado ações para aumentar a segurança de outras barragens da Vale depois que a Tüv Süd apontou para os problemas em fevereiro, depois do colapso da estrutura de Brumadinho. Schvartsman negou que tenha cometido os erros.