Terrorismo de barragens no Vale do Rio Doce

No dia 30/04, a Vale realizou sua Assembleia de Acionistas anual, durante a qual prestou contas de suas operações aos acionistas. A atividade, como é de praxe, previu uma pauta com diversos pontos de interesse. Sobre cada ponto, os acionistas podiam votar a favor ou contra e explicar o porquê de seu voto. Os votos e justificativas ficam registrados em ata. 

Os acionistas críticos da Articulação Internacional dos Atingidos e Atingidas pela Vale (AIAAV) estiveram na reunião e apresentaram seus votos contestando pontos específicos da prestação de contas da empresa. Foram 7 votos. Ao longo desta semana, vamos apresentar aqui cada um deles, e suas respectivas justificativas. Os votos serão apresentados aqui tal qual foram lidos pelos acionistas críticos durante a assembleia online realizada dia 30/04.

Voto 2

Terrorismo de barragens no Vale do Rio Doce

Apresento voto contrário à aprovação da cisão parcial da MBR, uma vez que não são prestadas a nós, acionistas, informações sobre os passivos detidos e as barragens que correm risco de rompimento que serão absorvidas.

Vale dizer que a falta de informações ocorre não apenas com o acréscimo de novas empresas, mas na situação daquelas que já estão ativas. Nesse sentido, o pedido de recuperação judicial apresentado pela Samarco no começo deste mês de abril não foi suficientemente informado às/os acionistas, que estão até este momento sem entender como a empresa, que teve lucro exemplar em 2020, pode precisar de recuperação judicial.

Este processo nos leva a perguntar se, mesmo com um processo marcado por irregularidades como a tentativa de reparação dos atingidos pelo rompimento em Fundão (2015), o pedido de recuperação judicial da empresa significa que ela não tem condições de arcar com eventuais débitos do processo de reparação ou se é este pedido uma forma de burlar a legislação para novos negócios.

Além disso, aproximadamente 500 pessoas da comunidade de Socorro, em Barão de Cocais (MG), foram retiradas de suas casas em fevereiro de 2019 sob a justificativa que a barragem Sul Superior de Gongo Soco teve seu nível de risco aumentado de 1 para 2, sendo possível o rompimento da barragem de rejeitos a qualquer momento. Assim, desde então as famílias estão impedidas de retornar às suas casas, mesmo que por tempo determinado, e a Vale tem negociado a compra dos terrenos que tiveram que ser abandonados.

Todas essas famílias estão, desde então, ceifadas de seu direito de propriedade e correndo o risco de nem serem reassentadas, como forma de indenização pela perda de sua segurança na comunidade de onde vêm, nem com aporte financeiro capaz de assegurar a elas condições de vida igual ou superior à que possuíam quando do acionamento da sirene do medo garantido.

Diversos têm sido os acionamentos de sirenes de alerta na região, causando um clima de medo e alerta ininterrupto das famílias que residem nas zonas de autossalvamento de Barão de Cocais, Nova Lima e Catas Altas.

Ainda que se reconheça a importância do acionamento dessas sirenes quando existe uma ameaça ou uma emergência – tal qual um rompimento de barragem de rejeitos – e que o acionamento adequado em Brumadinho e em Bento Rodrigues teria sido capaz de salvar vidas, não é possível que a atividade cotidiana de um empreendimento minerário possa servir como desculpa para a perda do sossego de todas as famílias próximas quando não existe informação sobre os reais riscos de rompimento de uma barragem e de ameaça à vida dessas pessoas.

Não se pode utilizar um mecanismo de segurança como desculpa para criar pânico entre crianças, adultos e idosos eventualmente, com disparos acidentais ou descuidados dessas sirenes.

Dessa forma, a falta de informações sobre a situação financeira da Samarco, sobre a real situação de segurança das barragens do Rio Doce e sobre a existência ou não de capital destinado à reparação das famílias que estão sofrendo com o terrorismo de barragem deve impedir a cisão da MBR até que essas informações sejam prestadas.

Portanto, este voto é contrário à cisão parcial da MBR, uma vez que é necessário entender o contexto atual das demais empresas controladas pela Vale e o valor dos passivos necessários para garantia dos direitos das pessoas atingidas repassado aos acionistas para, então, se possa pensar em nova aquisição.

Por fim, quero registrar o requerimento que este voto seja devidamente juntado à ata da assembleia, tanto em português quanto em inglês.

Conheça os demais votos

Voto 1

Voto 3

Voto 4

Voto 5

Voto 6

Voto 7

Últimas notícias

Votos das Acionistas Críticas 2024

Votos das Acionistas Críticas 2024

A Articulação Internacional dos Atingidos e Atingidas pela Vale (AIAAV) lança hoje (06/12) o Cadernos de Votos das Acionistas Críticas compilando os votos apresentados e 2024 durante a Assembleia Geral de Acionistas realizada pela Vale. Os votos são apresentados na...

Articulação Internacional dos Atingidos e Atingidas pela Vale (AIAAV)
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.